sábado, 14 de novembro de 2009

Introdução


A cultura ao decorrer dos anos tem marginalizado o mito. Durante muito tempo o imaginário popular vem dando ao mito o significado de algo não verdadeiro. É bem verdade, que o mito não se preocupa em ser verdade ou ser mentira; o mito tem como objetivo explicar, através de uma narrativa, a origem de algo: como a origem da humanidade ou a origem do mundo. Porém a mitologia vai além da explicação da origem, ela busca dar explicações para os desejos, as utopias e os sofrimentos do homem.
Pressupondo-se que cada cultura tem seus medos, ambições e sofrimentos, é de se esperar que tenham mitos completamente diversos para suas perguntas semelhantes. Enganam-se os que pensam nesse sentido. Veremos que civilizações distantes, em tempo e espaço têm explicações bastante parecidas para algumas questões, o que nos leva a crer que ou tiveram o mesmo berço cultural ou existiu interação entre elas.
Falando, sobre mito como elemento para dar esperança aos homens, na medida que tenta explicar a origem do sofrimento humano, bem como a origem do mundo e dos homens pela obra divina, entramos num elo entre Teologia e Mitologia. Sendo objetivo da teologia explicar e legitimar a vida de cada sociedade ela, nesse aspecto, se utiliza de diversos mitos para fazer essas explicações. Não só dos mitos, mas alguns deles são essenciais para o desenvolvimento dos dogmas e de toda a sua teologia. Temos religiões dos livros que são livros carregados de mitos e até mesmo as religiões da palavra, que em seus discursos os mitos são facilmente identificáveis. Mas nem todos acham a narrativa mítica uma alternativa plausível. Por causa dessa narrativa os céticos encaram toda religião como uma forma de manipulação de uns, mais poderosos, sobre outros, menos poderosos.
Os que aderem ao ceticismo acreditam que todo mito seria a mais tola mentira, que o mito é simplesmente a tentativa de um povo primitivo, sem tecnologia alguma, dar explicação aos seus medo e angústias, explicar simplesmente o que não conseguem entender. Para eles é impossível acreditar que o dilúvio pudera ter ocorrido, já que fere toda lei da física conhecida hoje, como se já detivessem e entendessem todas as leis que regem o mundo. Não levam em consideração que entender como funciona e saber origem, são coisas distintas. Nem que podem coexistir mito e ciência.

Mito e Religião


Os mitos são, em primeira análise, a base das religiões, eles não só explicam a origem do mundo e dos animais, incluindo aí os homens, mas também nos apresentam um deus ou deuses, que geralmente são os autores da criação, detém o poder a sabedoria e fazem a dicotomia do bem e do mal, e esse mesmo deus/deuses serão responsáveis pelo julgamento dos homens. Salvação àqueles que seguiram o bem e perdição aos perversos. Mas como saber distinguir o bem do mal? O mito não tem essa pretensão. Enquanto a doutrina da religião aponta os caminhos do bem/mal o mito explica quem criou a doutrina e o resultado pra quem segue ou não.
Quando nada existia, sem matéria prima alguma Yaveh ( o Deus hebraico-cristão) criou o mundo e tudo que nele há. Depois Yaveh pegou a terra moldou um ser à sua imagem e deu a ele o sopro de vida. Apresentei-lhes agora o mito da criação humana, bastante conhecido das religiões hebraico-cristãs. Esse mesmo deus Yaveh, durante toda a história dos Hebreus, faz coisas grandiosas que chegaram até nós através da bíblia ( o livro das religiões cristãs), nessa bíblia é narrado que esse mesmo deus, Yaveh, julgará a todos. Até esse ponto todo cristão sabe de cor, o que muitos não sabem é que o povo Yorubá ( Povo africano da atual Nigéria), que também tem alguns textos, acredita que Oxalá teria criado o homem do barro e é o mesmo tipo de criação encontrada na mitologia grega. Nessa mitologia Zeus destrona alguns deuses, o titã Prometeu chega à terra onde adormecia a semente dos deuses e com um pouco de argila, um pouco de água e à semelhança dos deuses fez o homem para que fosse o senhor da terra e Atena lhe deu o sopro de vida. Vimos aqui três povos de regiões, línguas e religiões diferentes com o mesmo tipo de mito para a criação do homem. Eles falam do mesmo deus, explicam utopicamente o mesmo fato da mesma forma ou o homem foi realmente criado pelos deuses?
A semelhança entre os mitos das religiões não para por aí, vejamos:
O Jardim do Éden. Esse jardim seria o local que o homem viveria feliz em paz, sem dor, sem morte e sem a necessidade do seu trabalho. Isso na visão Hebraico-cristã. Olhando para a Idade do Ouro na mitologia grega o deus Cronos (violento, filho de Urano e Gaia, céu e terra) presidiu uma raça de homens que não precisava trabalhar, a terra os provia de tudo que precisavam e não necessitavam de roupas.
O dilúvio. Para os Incas o deus Viracocha teria ordenado aos homens que vivessem com respeito e ordem o que levaria à paz, mas a desobediência dos homens levou Viracocha a despejar sobre os homens um dilúvio. O mesmo motivo que levou Yaveh a despejar o dilúvio sobre os homens, salvando apenas a família de Noé numa arca e representantes dos animais.
A queda da humanidade começando na mulher. Enquanto Eva teria começado a queda da humanidade, na mitologia cristã. Zeus teria criado pandora, belíssima criatura que causaria a desgraça dos homens.
O povo escolhido. Enquanto Moisés foi escolhido como guia para salvação do povo escolhido, Obaluayé também o seria e este foi jogado por sua mãe, Nana Buruku e resgatado por Yemojá.
As religiões são mágicas e/ou éticas. As éticas buscam implementar valores a seguir e as mágicas buscam o sobrenatural para mudar a natureza das coisas. Os mitos nas religiões têm um papel fundamental de ensinar e doutrinar para ambas as modalidades de religião.

Mito, Teologia, Ceticismo e Ciência.


A necessidade de afirmação de vários grupos e a natureza livre dos mitos, levam ao aparecimento de diversas teologias. Os mitos religiosos estão inseridos em um contexto maior, e analisá-los de forma independente, ou simplesmente como fatos históricos verídicos, leva a uma má interpretação. Os mitos aí estão dispostos para serem exemplos, para ser fonte de inspiração, para trazer ensinamentos.
Um mito bastante conhecido do cristianismo é o da Torre de Babel. Neste mito a arrogância do homem o leva a querer ser como Deus e tentar construir uma torre que chegue ao céu. Yaveh não contente, causa uma confusão mudando o idioma e os homens se dispersam pela terra em tribos de idioma comum. Yaveh, sendo um Deus que tudo sabe, saberia que eles nunca chegariam ao encontro dEle. Desta maneira, então será que o propósito era que soubéssemos se a torre existiu, ou nos dar uma lição de que não devemos querer ser como Ele, pois isso só trás a confusão, ou ainda simplesmente explicar a existência de várias línguas diferentes. Vimos aqui que para o mesmo mito, demos três significados, isto acontece em coisas mais complexas da bíblia cristã e faz aparecer diversas teologias para o mesmo assunto.
Para os cristãos ou interessados deixemos um questionamento para reflexão. Em Pentecostes (livro de Atos dos Apóstolos – na bíblia cristã) O Espírito Santo age e cheios do espírito, homens de Deus, falam em línguas que não a sua e se fazem entender pelos povos em suas línguas nativas. Em Babel (livro de Gênesis) Yaveh faz mudar a linguagem do povo “ímpio” (querendo dizer: em erro). Houve aí um pentecostes? O Espírito de Deus encheu aquelas pessoas?

Com o avanço da humanidade muitas questões outrora respondidas pelos mitos, foram respondidas pela ciência, aparecendo aí um pensamento que hoje denominamos com ceticismo. Este pensamento leva em consideração que os mitos são inverdades, enganação. Um Deus onisciente, para eles, não combina com o Deus que cria a humanidade e depois se arrepende de tê-la criado e a destrói. Porém entender o mito do dilúvio requer entender outros aspectos da teologia cristã, como o arbítrio, a justiça.
Então os céticos encaram o mito do dilúvio como um fato histórico e buscam negá-lo. Uma das suas afirmações é que se a arca mede 137,16m de comprimento, 22,86m de largura e 13,76m de altura, ela teria 43.144,17m2 de volume o que seria insuficiente para toda espécie de animal, Noé e sua família, comida, lixo acumulado (já que só tinha uma porta e uma janelinha de 42 centímetros, que ficaram 40 dias/noites fechados. Então todos morreriam asfixiados.
Limitar essa narrativa a esse fato é no mínimo injusto. O que a narrativa quer passar é que a obediência a Yaveh, mesmo em meio a todos pensando que estás louco, levará a uma vida que ultrapassará a morte.
Para os céticos não poderia haver tanta água para as chuvas, mas a bíblia explica que houve divisão entre águas e águas e no meio delas o firmamento. Onde está essa água sobre o firmamento hoje. A ciência explica hoje que além do ozônio um filtro excelente para os raios solares é a água. Antes do dilúvio, o clima da terra era suave, homogêneo e a qualidade do ar excelente, devido à barreira da água. Os dinossauros eram gigantes, mas precisavam de um pulmão do tamanho do de um cavalo. Um réptil como a lagartixa cresce até morrer, se você corta-lhe o rabo ele cresce, agora imaginem uma lagartixa vivendo trinta vezes mais, era isso que ocorria com o réptil. A bíblia relata que após o dilúvio o tempo de vida na terra diminuiu drasticamente e a ciência explica que os raios solares mais a atmosfera atual cheios de oxidante é que levam ao envelhecimento rápido das espécies.
Mito e ciência podem andar juntos, coexistirem. O que leva a crer que religião e ciência também podem coexistir sem estarem se negando mutuamente.

A mitologia religiosa atribui a um deus/deuses a criação do homem, mundo e animais, através de um ato transcendente que exige fé religiosa para aceitar. Mas existe uma teoria que tem sua base no big bang, a grande explosão que gerou a todos seres de uma única célula. É a teoria da evolução que, segundo Darwin, apregoa que o homem vem evoluindo de várias espécies de homo ao longo do tempo e vindo anteriormente de uma espécie de primata. Os céticos utilizam essa teoria por achar plausível e não necessitar de uma “mágica” para existirem. Porém, essa teoria nunca ficou comprovada e um dos pontos que levam a isso é explicar que as espécies evoluem para sobrevivência e após a evolução, a espécie anterior se extingue. Como podem coexistir homem e macaco a tantos milhares de anos juntos. A teoria também é uma tentativa de explicação que é depois comprovada ou não, o mito ou é simplesmente para explicar e ser aceito com fé ou para ensinamentos religiosos.

Conclusão


O mito tem importância fundamental na história da humanidade. A ciência primeiramente se desenvolveu tentando negar os mitos. E essa dicotomia existe até hoje, ciência e religião (mito), não podem dar as mãos por serem opostas. É papel fundamental da teologia fazer a aproximação entre elas, pois é cada vez mas notório que muitas questões que não estão sendo resolvidas na ciência estão achando resolução na religião. A religião tem ajudado à medicina, sobretudo a psiquiatria, mas não menos em doenças incuráveis, porém o mais brilhante e silencioso beneficio da religião, e muito disso começa na aceitação dos mitos, é de não deixar essas doenças aparecerem, a religião tem preenchido o vazio dentro das pessoas que a ciência não consegue preencher, o vazio do sentido da vida, que tem levado muitas pessoas à depressão. Aceitar o mito é também aceitar que existe algo maior que rege as vidas que dá sentido e direciona o viver.